quarta-feira, 28 de outubro de 2015

CONFRONTO DOS PRINCIPAIS ARGUMENTOS DO DANIEL COM OS MEUS (TESTEMUNHAS DE JEOVÁ)

Primeiramente eu gostaria de lhe agradecer porque dessa vez você apresentou um texto respeitoso, apresentando suas conclusões sem atacar ninguém utilizando termos depreciativos como "apóstata" etc. De modo geral você não ficou tentando colocar minhas palavras em contradição tirando as mesmas do contexto, embora você ainda está transmitindo um impressão falsa de que eu esteja defendendo uma "pregação seletiva", isso não é verdade como vou demonstrar. Você apresentou um texto bonito, bem escrito (embora em muitas partes dele eu tenha identificado informações que li recentemente na Sentinela na íntegra sem aspas nem referência). Infelizmente eu preciso te dizer que as conclusões às quais você chegou são altamente especulativas, e na verdade o contexto não as apoia como ficará claro após minha exposição. Portanto o que vou fazer a partir de meu próximo post é fazer algumas observações a respeito das partes principais de sua argumentação. Em seguida apresentarei uma informação que ainda não abordei e finalmente analisaremos a forma de "ensino" em casa da forma  apresentada de fato no Atos dos Apóstolos. Logo apresento minha análise. Mais uma vez, obrigado pela forma respeitosa pela qual apresentou seus argumentos.

Vamos à primeira parte de sua abordagem. Já no primeiro ponto você disse algo que me surpreendeu bastante, eu sinceramente não imaginava que você diria algo desse tipo:

“Atos 19: 1-7: O Relato fala que Paulo achou alguns discípulos. O texto não mostra como Paulo achou tais discípulos, mas é certo que Paulo encontrou esses antes de pregar na sinagoga de Éfeso ou na Escola de Tirano!!! É de se esperar que Paulo os tenha encontrado numa pregação “de casa em casa”” (a ênfase é minha).

Quando li isso, não pude deixar de me lembrar de um comentário seu anterior:

“RICARDO GUERRA: TODOS ESTES RELATOS (Incluindo o de Cornélio) antecedem o relato da atividade de Paulo em Éfeso. DEVEMOS ACHAR (Achismo) que estes não lançam luz sobre a declaração de Paulo em Atos 20:20 de que ele deu “cabalmente testemunho, tanto a judeus como a gregos, do arrependimento para com Deus e da fé em nosso Senhor Jesus”?”

É surpreendente o fato de você dizer que a conclusão apresentada por mim baseada em um método de pesquisa (“histórico científico”) seja “achismo” e ao mesmo tempo dizer algo como o que disse acima, ou seja, de que “é certo que Paulo achou aqueles discípulos de casa em casa”. Não existe nada no texto que indique isso, sua conclusão é altamente hipotética, e na verdade totalmente improvável. O texto também não diz que Paulo achou eles antes de ir à sinagoga, e de fato mais à frente demonstrarei que que ele esteve na sinagoga antes disso. Logo em seguida ao comentário acima você disse o seguinte:

“No primeiro dia que Paulo pisou em Éfeso, a primeira coisa que fez foi pregar de casa em casa para esses discípulos. Contrariando o argumento de que ele PRIMEIRO pregava publicamente e DEPOIS de casa em casa”.

Você está afirmando isso, mas sabe que é uma “dedução” de sua parte não é mesmo? Em parte alguma o texto diz que esses discípulos foram contatados de “casa em casa” (depois falarei sobre o sentido correto dessa expressão). Por outro lado, que Paulo pregava primeiro publicamente já foi provado pela a análise das passagens Bíblicas de todos os locais onde ele passo antes desse episódio. Sem nenhuma exceção, em todos os lugares em que havia uma comunidade de judeus, Paulo ia diretamente à sinagoga assim que chegava na localidade. Veja o resumo do que já foi apresentado nesse respeito:

EM CHIPRE: “Concordemente, estes homens, enviados pelo espírito santo, desceram a Selêucia, e dali navegaram para Chipre. E, tendo chegado a Salamina, começaram a publicar a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus. Tinham também João por assistente” (Atos 13:4,5).

EM ANTIOQUIA DA PSÍDIA: “Eles, no entanto, seguiram de Perge e vieram a Antioquia, na Pisídia, e, entrando na sinagoga no dia de sábado, tomaram assento. Depois da leitura pública da Lei e dos Profetas, os presidentes da sinagoga mandaram dizer-lhes: “Homens, irmãos, se tiverdes alguma palavra de encorajamento para o povo, dizei-a.”” (Atos 13:14,15).

EM ICÔNIO: “Ora, em Icônio entraram juntos na sinagoga dos judeus e falaram de tal maneira, que uma grande multidão, tanto de judeus como de gregos, se tornaram crentes” (Atos 14:1).

EM TESSALÔNICA: “Viajaram então através de Anfípolis e Apolônia, e vieram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga dos judeus. Assim, segundo o costume de Paulo, ele entrou, indo ter com eles, e por três sábados raciocinou com eles à base das Escrituras” Observe a expressão “como de costume”.

EM BEREIA: “Os irmãos enviaram imediatamente tanto Paulo como Silas, de noite, para Beréia, e estes, ao chegarem, entraram na sinagoga dos judeus”.

EM CORINTO: “No entanto, cada sábado, ele dava um discurso na sinagoga e persuadia judeus e gregos”.

Com base em todos esses relatos não é difícil concluir (baseado em evidência) que em Éfeso tenha acontecido o mesmo. Na verdade a própria Bíblia fornece a informação de que antes do episódio envolvendo os 12 discípulos, Paulo estivera em Éfeso. Qual foi o primeiro lugar em que ele pregou? Veja: “No entanto, depois de demorar-se mais alguns dias, Paulo despediu-se dos irmãos e passou a navegar para a Síria, e com ele Priscila e Áquila, visto que em Cencréia cortara rente o cabelo de sua cabeça, pois tinha um voto. Chegaram assim a Éfeso, e ele os deixou ali; ele mesmo, porém, entrou na sinagoga e raciocinou com os judeus” (Atos 18:18,19). E aqui mais uma vez confirmamos que Paulo pregava “primeiro” publicamente, e somente depois nas casas. Agora temos a confirmação de que foi assim também em Éfeso, de modo que (ou “desse modo” tanto faz) não é difícil entender o sentido de Atos 20:20.

Se você entender que Paulo pregou primeiro aos judeus e que todos os judeus se reuniam na sinagoga nos lugares onde Paulo passou, você não percebe que dessa forma ele deu “testemunho cabal” aos judeus? (Atos 13:46; 18:6). De fato o melhor lugar para Paulo falar com todos os judeus (portanto não se trata de uma pregação “seletiva” como você está deduzindo erroneamente) era a sinagoga mesmo.

Que dizer dos não judeus? De modo similar, todas as passagens que falam de pregação a gentios anteriores a Atos 20 se referem a locais públicos. Novamente é confirmado que Paulo pregou “primeiro” publicamente, consequentemente o segundo método só pode ser de modo particular. Veja por exemplo o relato de Listra e Derbe onde evidentemente não havia comunidade judaica e o texto diz expressamente que ele falou à uma “multidão” (Atos 14:8-20). Outro exemplo foi em Atenas onde ele falou no areópago, portanto novamente pregação “pública” (Atos 17:16-32). Na última parte de minha abordagem falarei sobre onde entram as casas em todos esses relatos. Talvez agora esteja passando por sua cabeça como Paulo e seus colaboradores poderiam ter “dado testemunho cabal” aos gentios já que no caso dos judeus ficou muito claro que ele fez isso na sinagoga. Então veja o que diz esse artigo da própria revista Sentinela sobre isso:

“Enquanto se permitia aos judeus cristianizados falar na sinagoga, eles iam para lá todo sábado. (Atos 17:1-4) Isto os habilitava a pregar as “boas novas” a toda a população judaica de determinada aldeia ou cidade. E, pelo testemunho público, regular, na feira, os demais da população podiam ser alcançados com a mensagem cristã, vital. Por causa de tal atividade pública, mercadores viajantes e visitantes também ficavam sabendo das “boas novas”. De modo similar, quando os cristãos viajavam para outros lugares, transmitiam suas crenças a outros. Em resultado, apenas uma só congregação podia divulgar a verdade amplamente, em todo o país. Note o que o apóstolo Paulo disse sobre isso a respeito da congregação de Tessalônica. “De vós repercutiu a palavra do Senhor, não só na Macedônia e Acaia, mas por toda parte se divulgou a vossa fé para com Deus, a tal ponto de não termos necessidade de acrescentar coisa alguma; pois eles mesmos, no tocante a nós, proclamam que repercussão teve o nosso ingresso no vosso meio, e como, deixando os ídolos, vos convertestes a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro, e para aguardardes dos céus o seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, Jesus, que nos livra da ira vindoura.” — 1 Tes. 1:8-10, Almeida, atualizada” (w 79 1/1 10-11).
Portanto Daniel, a própria Sentinela reconhece que a principal forma de contatar as pessoas no primeiro século foi publicamente em “praças”, “feiras”, e no caso dos judeus nas “sinagogas” e em outros lugares públicos. Desse modo, em relação aos gentios também a pregação não foi seletiva, mesmo sendo primeiramente “pública”. Tire esse conceito equivocado de sua cabeça.

Mais a frente você disse o seguinte:

“O que esse versículo (Atos 19:4) nos ensina sobre a pregação apostólica de Paulo? Que o apóstolo pregava o arrependimento e a fé em Cristo ANTES DO BATISMO e não após”.

Eu já te falei que em relação ao “arrependimento e a fé em Jesus” ser ensinada antes do batismo eu concordo com você, você deve se lembrar disso. O que eu disse que continuava a ser ensinado como um discipulado, sobretudo para pessoas que escutavam a mensagem básica para a salvação (e aqui você concordou comigo nos seus últimos comentários) era “tudo que é proveitoso” (vers. 20) e “todo o conselho de Deus” (vers. 27). Você disse muito bem em comentários anteriores, que o “arrependimento e a fé” esta incluído em “tudo que é proveitoso”, e com isso você deve reconhecer que isso não é a totalidade de “tudo que é proveitoso” e “todo o conselho de Deus”. Nesse respeito também podemos recorrer à própria revista Sentinela que diz:

“Paulo disse aos superintendentes de Éfeso: “Não me refreei de vos falar coisa alguma que fosse proveitosa, nem de vos ensinar publicamente e de casa em casa.” Ele encontrou estes homens durante o testemunho público. Não os instruiu apenas até se batizarem. Antes, deu-lhes “cabalmente testemunho” até obterem verdadeiro entendimento do propósito de Deus, de Sua soberania exercida por meio de Cristo e de sua relação com Ele. Disse-lhes também: “Não me refreei de falar a todos vós todo o conselho de Deus.” — Atos 20:20, 21, 27” (W 79 1/6 pag. 16)

Observe que a revista diz expressamente que “ele (Paulo) encontrou estes homens durante o testemunho público. E também que “não os instruiu apenas até se batizarem”. E a pergunta que eu te faço aqui é a seguinte: Você concorda ou discorda com essa informação apresentada na Sentinela? Eu gostaria muito que você respondesse essa pergunta. Além disso olha o que diz esse ministério do Reino:

“Certamente, é bom que os recém-batizados fiquem firmemente arraigados na fé e nos princípios cristãos, por meio dum estudo pessoal das Escrituras. (Col. 2:7) É óbvio que, grande parte do processo de aprender, da parte do novo discípulo, tem de seguir o batismo. (Veja Mateus 28:19, 20.) Portanto, caso se ache que um publicador batizado definitivamente precisa de ajuda pessoal, a fim de completar o estudo cabal pelo menos de duas das publicações da Sociedade, no arranjo de estudo bíblico domiciliar, então, certamente, alguém deveria estudar com ele. Em tal caso, o estudo deve ser relatado, bem como o tempo de serviço de campo e as revisitas daquele que dirige o estudo, até que se tenham terminado as duas publicações” (km 10/77 pag. 4).

Portanto até mesmo as testemunhas de Jeová atualmente continuam a “ensinar” recém batizados. Na verdade você “ancorou” nesse termo do “arrependimento e da fé” mencionados no verso 21 o tempo todo, mas acho que agora é uma boa oportunidade para você reconhecer que esse argumento não se fundamenta. A não ser que você discorde das próprias publicações da sua religião.

Os pontos mencionados acima refutam a maior parte do que você disse na última parte do seu argumento. Você na verdade concorda que “todo o conselho de Deus” envolvia um discipulado após o batismo quando você disse:


“Atos 19:8-10 diz que Paulo pregou na Sinagoga por três meses. O que Paulo pregava ali? Pregava o Reino de Deus. (Veja Atos 19:8) O Reino de Deus envolve muitas coisas dentre elas o conselho de Deus. Isso fica evidente no versículo 9, pois os Judeus começaram a falar “injuriosamente sobre Caminho” (I.e. O MODO DE VIDA CRISTÃO). O versículo 9 mostra que esses discípulos estavam presentes nesses 3 meses ouvindo os discursos de Paulo sobre o Reino de Deus e sobre o modo de vida cristã. Após isso, Paulo passa a fazer discursos diários no auditório da escola de Tirano para o público e para os discípulos (incluindo os 12 batizados)”.

A única diferença é que aqui (em Atos 19) esse discipulado é feito de forma coletiva e em uma escola, ao passo que em outros casos, que inclusive mencionarei na última parte de minha abordagem, esse discipulado era feito na casa dos discípulos, as vezes para a família que recebera a palavra, e as vezes para outras pessoas que eram convidas para a mesma casa.
 Depois você disse também:

“Atos 19:10 utiliza uma conjunção adverbial modal, “de modo que” e não “desse modo” no sentido que só dessa maneira ele conseguiu alcançar todos no distrito da Ásia”.
 
A respeito disso eu sugiro que você analise novamente esse conceito gramatical:
Oração coordenada sindética conclusiva: transmite a conclusão de uma ideia expressa na oração anterior. É obrigatório o uso de vírgulas antes das orações coordenadas sindéticas conclusivas. São utilizadas conjunções coordenativas conclusivas ou locuções conjuncionais coordenativas conclusivas: logo, pois, portanto, assim, por isso, por consequência, por conseguinte, consequentemente, de modo que, desse modo, então, etc”. (http://www.normaculta.com.br/oracoes-coordenadas/)

Não há diferença em dizer “desse modo” ou “de modo que”. Ambas “transmitem a conclusão de uma ideia expressa na oração anterior”, portanto o que Atos 19:10 está dizendo é que “todo o Distrito da Ásia” escutou a mensagem da Palavra através de testemunho Público, isso é o que todas as passagens que já analisamos demonstram.
Achei interessante a sua citação:

“Sobre pregação de Paulo em Éfeso A. E. Bailey escreve em seu livro Daily Life in Bible Times (A Vida Cotidiana nos Tempos Bíblicos): “O costume normal de Paulo era trabalhar na sua profissão desde o amanhecer até as onze horas da manhã (Atos 20:34-35), hora em que Tirano finalizava seu ensino; daí, das onze da manhã às quatro da tarde, pregava no recinto, conferenciava com assistentes e mantinha conversas privativas compretendentes, considerava meios de expansão para o interior; daí, por fim, fazia uma visitação evangelística de casa em casa que ia das quatro horas da tarde até altas horas da noite (Atos 20:20-21, 31).” — 1943, página 308.”

Depois disso você afirmou o seguinte:

“Com base na evidência histórica Paulo pregava de 11h até as 16h”.  

Ora Daniel, isso não é evidência histórica, isso é especulação e das “cabeludas”. Evidência histórica é algo que extraímos de documentos, e nesse caso o documento que falaria sobre isso é a própria Bíblia. Sobre isso eu só aconselho: “Não vades além das coisas que estão escritas” (1Coríntios 4:6). Você fez citação de outros eruditos buscando apoio à sua tese. Mas o fato é que para cada um que concorda com a Torre de Vigia em relação ao “de casa em casa” (e na verdade a maioria dos eruditos não interpretam o “de casa em casa” como de “porta em porta”) existem vários outros que discordam dela. Eu poderia citar vários comentários em discordância, mas o que vou apresentar são palavras dos próprios membros de destaque da comissão de redação em Brokiln:

“Entre os comentários feitos, Karl Adams declarou que o artigo (sobre a pregação “de casa em casa”) “parecia estar tentando torcer as Escrituras para ajustá-las a uma ideia preconcebida””.

“Do tom do artigo, fiquei com a impressão que estamos tentando fazer as Escrituras dizer algo que queremos que elas digam; trabalhamos os textos para fazê-los dizer o que queremos que eles digam... Penso que estamos esquecendo um aspecto importante em tudo isto. Todos devem louvar a Deus, pregar. Fazê-lo é que é vital, e não como fazê-lo. Se os primitivos cristãos não iam de casa em casa, isso não significa que nós não devamos fazê-lo. Se o faziam, não significa que também tenhamos de fazê-lo. Eles iam às sinagogas, nós não vamos às igrejas. Nós fazemos congressos internacionais, não há indicação de que eles faziam isso... Por que forçar o requisito de uma única maneira [de pregar]? Por que fazer da obra de “casa em casa” uma pedra-de toque? A questão é alcançar as pessoas. O como não é importante, desde que seja amoroso e ajude as pessoas a quem se dá testemunho” (Um membro antigo da equipe de redação cujo nome não foi revelado para a preservação de sua identidade).

Um ancião, em sua resposta à Sociedade sobre o uso da “folhinha de relatório” declarou: “Em cada vez mais territórios é possível ir de porta em porta durante literalmente horas e não falar com ninguém... Fica cada vez mais claro que a maior parte do aumento resulta dos esforços de testemunho informal em vez do testemunho de porta em porta.” - Carta de Worth Thornton).

Portanto até mesmo membros importantes da própria organização Torre de Vigia discordaram da aplicação forçada da Torre de Vigia dada aos textos de Atos em consideração.
Mais à frente você disse o seguinte Daniel:

“Comparando Lucas 8:1 e Mateus 9:35 mostra que a pregação “de cidade em cidade” e “de aldeia e aldeia” era por “todas as cidades e aldeias”. Da mesma forma Kat oikous (de casa em casa) em Atos 20:20 tem o sentido de “em todas as casas”. Mas porque tais Eruditos defendem que Kat oikous tem esse sentido?”

Mas o próprio Jesus disse que os discípulos não alcançariam todo o “circuito” de Israel: “De modo algum completareis o circuito das cidades de Israel antes de chegar o Filho do homem” (Mateus 10:23). Vou demonstrar mais à frente que o sentido “distributivo” de Kat’ oikon em Atos não é o mesmo que “consecutivo”, o contexto imediato e amplo do livro não permite essa aplicação. Na verdade já analisamos três delas, mas agora apresentarei uma nova passagem.

Quando você falou do conceito de “pregar” (kerisso) você evidentemente deixou de perceber que o “testemunho” dado por Paulo mencionado no mesmo contexto fala sobre “ensinar”, “anunciar” (verso 20), e isso abrange mais que o conceito de “pregar”. Portanto o texto só confirma que o testemunho envolveu também o discipulado que sucedeu ao batismo daqueles cristãos, o que já foi comprovado até mesmo em citação da revista Sentinela, assim não é necessário repetir tudo aqui novamente.

Em resumo dessa parte, é totalmente hipotético e especulativo afirmar que a pregação de Paulo em Éfeso envolveu o ensino de “porta em porta”. O contexto imediato e amplo de Atos está em flagrante conflito com essa conclusão. Foi dado sim um “testemunho cabal”, não de forma “seletiva”, mas isso foi feito de forma pública. O que foi feito nas casas foi o ensino de pessoas que na maior partes das vezes, já tinham crido e recebido o batismo. Isso fica claro até mesmo pelo fato de que Paulo estava falando com anciãos.

Vamos agora à apresentação da análise dos textos de Atos com base em algumas evidências adicionais.

Agora apresentarei outras cinco novas passagens onde a expressão “kat’ oikon” aparece, sendo que nosso foco principal deverá ser a primeira, que semelhante a Atos 2:46; 5:42 e 20:20, também está com o sentido “distributivo”.

1) Atos 8:3: “Saulo, porém, começou a tratar a congregação de modo ultrajante. Invadindo uma casa após outra, e, arrastando para fora tanto homens como mulheres, entregava-os à prisão”.

Aqui também foi utilizada a preposição “kata” em sentido distributivo. É interessante observar a opção de tradução utilizada pela NVI:

“Saulo, por sua vez, devastava a igreja. Indo de casa em casa, arrastava homens e mulheres e os lançava na prisão”.

Percebeu que na NVI a expressão “de casa em casa” foi utilizada da mesma forma que nos textos de Atos 5:42 e 20:20 na TNM. De Maneira similar a NTLH verte esse texto:

“Porém Saulo se esforçava para acabar com a igreja. Ele ia de casa em casa, arrastava homens e mulheres e os jogava na cadeia”.

Quando eu estava analisando esse texto, eu me lembrei de um comentário seu feito anteriormente em outro post Daniel:

“Percebeu como que NTLH traduz Kai' oíkon? "De casa em casa" e "nas casas." Porque essa diferença? Resposta: Atos 5:42 está falando de pregação de casa em casa enquanto Atos 2:46 está se referindo a partilhar refeições nas casas dos irmãos. Usei uma tradução imparcial para mostrar que Kai' oíkon pode ser traduzido de duas formas” (a ênfase é minha).

Uma vez que você mesmo reconheceu a NTLH como uma “tradução imparcial” e os tradutores dessa Bíblia verteram a passagem de Atos 8:3 por “de casa em casa”, então você deve reconhecer que aqui a expressão está igualmente em sentido “distributivo”, mas não “consecutivo”.

Em relação ao seu comentário sobre a “imparcialidade” da NTLH, achei muito interessante também a forma que ela verteu Atos 20:20:

“Vocês também sabem que fiz tudo para ajudar vocês, anunciando o evangelho e ensinando publicamente e nas casas”.

Mas você convenientemente não fez citação desse texto nesta versão embora tenha citado Atos 2:46 e 5:42, evidentemente por achar que a opção de tradução apoiaria sua tese. Por outro lado, mais uma vez encontramos um texto em Atos dos apóstolos (8:3) que ilustra perfeitamente o uso da expressão “kat oikon” em todo o livro. E novamente seu uso vai contra a tese da Torre de Vigia defendida por você. Se somarmos a isso o fato de que em todas as passagens que falam de pregação no Atos, não encontramos nenhum exemplo do serviço de “porta em porta”, então sua tese se torna na verdade impossível.

O que segue abaixo são mais quatro exemplos do uso da expressão kat’ oikon nas Escrituras Gregas, aqui elas não estão em “sentido distributivo”, estou apresentando apenas para ilustrar o uso de “kat’ oikon” nas cartas de Paulo:

2) “e [cumprimentai] a congregação que está na casa (grego: kat’ oikon) deles. Cumprimentai o meu amado Epêneto, que é uma das primícias da Ásia para Cristo” (Romanos 16: 15).

3) “As congregações da Ásia enviam-vos os seus cumprimentos. Áquila e Prisca, junto com a congregação que está na casa (grego: kat’ oikon) deles, cumprimentam-vos cordialmente no Senhor” (1Coríntios 16:19).

4) “Dai os meus cumprimentos aos irmãos de Laodicéia, e a Ninfa, e à congregação na casa (grego: kat’ oikon) dela” (Efésios 4:15).

5) “e a Áfia, nossa irmã, e a Arquipo, nosso soldado companheiro, e à congregação que está na tua casa (grego: kat’ oikon)” (Filemom 2).

Eu repito que nesses quatro exemplos a expressão não está em “sentido distributivo”, ao contrário de Atos 2:46; 5:42; 8:3 e 20:20. Estas passagens são usadas aqui em sentido ilustrativo do uso da expressão nas Escrituras Gregas.

Agora disponibilizarei uma tabela de oito traduções que analisei pessoalmente e que vertem “kat oikon” por expressões como “nas casas”, “em casa”, “de casa em casa” entre outras nos textos de Atos 2:46; 5:42; 8:3 e 20:20. É curioso notar que algumas até mesmo traduziram Atos 2:46 se referindo às reuniões dos discípulos por “de casa em casa”:

Almeida Corrigida e Fiel (2007):

At 2:46: “E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão ‘em casa’, comiam juntos com alegria e singeleza de coração”.
]
At 5:42: E todos os dias, no templo e ‘nas casas’, não cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus Cristo.

At 8:3: “E Saulo assolava a igreja, entrando ‘pelas casas’; e, arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão”.

At 20:20: “Como nada, que útil seja, deixei de vos anunciar, e ensinar publicamente e ‘pelas casas’”

Almeida Revista e Atualizada:

At 2:46: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão ‘de casa em casa’ e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração”.

At 5:42: “E todos os dias, no templo e ‘de casa em casa’, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo’”. At 8:3: “Saulo, porém, assolava a igreja, entrando ‘pelas casas’; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere”.

At 20:20: “jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também ‘de casa em casa’”.

Almeida Revista e Corrigida:

At 2:46: “E, perseverando unânimes todos os dias no templo e partindo o pão ‘em casa’, comiam juntos com alegria e singeleza de coração”.

At 5:42: “E todos os dias, no templo e ‘nas casas’, não cessavam de ensinar e de anunciar a Jesus Cristo”.

At 8:3: “E Saulo assolava a igreja, entrando ‘pelas casas’; e, arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão”.

At 20:20: “Vocês sabem que eu não hesitei em lhes anunciar nada, desde que fosse para o bem de vocês, e de como lhes ensinei tanto publicamente como ‘de casa em casa’”.

Novo Testamento: Versão Fácil de Ler.

At 2:46: “Eles se reuniam no templo todos os dias, e dividiam o pão ‘de casa em casa’, repartindo a comida com alegria e com sinceridade no coração”.

At 5:42: “E todos os dias, quer no templo, quer ‘de casa em casa’, eles nunca paravam de ensinar e proclamar as Boas Novas a respeito de Jesus Cristo”.

At 8:3: “Saulo procurava destruir a igreja. Ele ia ‘de casa em casa’, arrastava para fora tanto homens como mulheres e os punha na cadeia”.

Atos 20:20: “como nada, que útil seja, deixei de vos anunciar e ensinar publicamente e ‘pelas casas’”.

Bíblia Viva.

At 2:46: “Regularmente eles adoravam juntos no templo todos os dias, reuniam-se em grupos pequenos ‘nas casas’ para a Comunhão, e participavam das suas refeições com grande alegria e gratidão”.

At 5:42: “E todos os dias, no templo e na cidade, continuavam a ensinar e pregar que Jesus é o Messias”.

At 8:3: “Paulo andava como que furioso, e ia a todos os lugares para destruir os crentes, entrando até nas ‘casas particulares’, arrastando para fora tanto homens como mulheres, metendo todos na cadeia”.

At 20:20: “Mesmo assim nunca fugi de falar a verdade a vocês, tanto publicamente como ‘nas suas casas”.

NTLH:

At 2:46: “Todos os dias, unidos, se reuniam no pátio do Templo. E ‘nas suas casas’ partiam o pão e participavam das refeições com alegria e humildade”.

At 5:42: “E, todos os dias, no pátio do Templo e ‘de casa em casa’, eles continuavam a ensinar e a anunciar a boa notícia a respeito de Jesus, o Messias”.

At 8:3: “Porém Saulo se esforçava para acabar com a igreja. Ele ia ‘de casa em casa’, arrastava homens e mulheres e os jogava na cadeia”.

At 20:20: “Vocês também sabem que fiz tudo para ajudar vocês, anunciando o evangelho e ensinando publicamente e ‘nas casas’”.

Tradução Brasileira (2010)

At 2:46: “Diariamente, perseverando unânimes no templo e partindo pão ‘em casa’, comiam com alegria e singeleza de coração”.

At 5:42: “E todos os dias, no templo e ‘em casa’, não cessavam de ensinar e pregar a Jesus, o Cristo”.

At 8:3: “Mas Saulo assolava a igreja, entrando ‘pelas casas’; e, arrastando homens e mulheres, os entregava à prisão”.

At 20:20: “como não me esquivei de vos anunciar coisa alguma que era proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e ‘de casa em casa’”.

NVI

At 2:46: “Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão ‘em casa’ e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração”.

At 5:42: “Todos os dias, no templo e ‘de casa em casa’, não deixavam de ensinar e proclamar que Jesus é o Cristo”.

At 8:3: “Saulo, por sua vez, devastava a igreja. Indo ‘de casa em casa’, arrastava homens e mulheres e os lançava na prisão”.

At 20:20: “Vocês sabem que não deixei de pregar a vocês nada que fosse proveitoso, mas ensinei tudo publicamente e de ‘casa em casa’”.

E finalmente o link com a comparação dos mesmos textos acima (com exceção de Atos 8:3) em 27 traduções em inglês: http://coisasdareligiao.blogspot.com.br/2015/10/tabela-com-12-traducoes-de-atos-246-542.html.

Creio que agora já podemos analisar os relatos de discipulado em lares particulares, o que fechará esse debate (de acordo com o parâmetro estabelecido pro você mesmo), provando assim que não existe nenhuma evidência contextual a favor do “serviço de porta em porta” nas páginas da Bíblia. Por outro lado analisaremos pelos menos 6 exemplos que indicam o sentido correto da expressão “kat oikon” em Atos 5:42 e 20:20.

Pois bem Daniel, agora gostaria de lembra-lo do que você disse em comentário anterior:

“Quando você me mostrar um TEXTO QUE PROVA QUE O BATIZADO ESTUDAVA DE FORMA INDIVIDUAL NA SUA PRÓPRIA CASA AÍ O NOSSO DEBATE ACABA”.

O que apresentarei são 5 exemplos que demonstram de que forma era feito o “ensino” (o próprio conceito de “ensino” indica um discipulado) de “casa em casa” no sentido correto da expressão, apoiado por todo o contexto amplo de Atos dos Apóstolos:

1) Batismo de Cornélio e sua família em sua casa:

“Enquanto Pedro ainda falava sobre estes assuntos, caiu o espírito santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis que tinham vindo com Pedro, que eram dos circuncisos, ficaram pasmados, porque a dádiva gratuita do espírito santo estava sendo derramada também sobre pessoas das nações. Pois, ouviam-nos falar em línguas e magnificar a Deus. Pedro respondeu então: “Pode alguém proibir a água, de modo que estes não sejam batizados, sendo que receberam o espírito santo assim como nós?” Com isso mandou que fossem batizados no nome de Jesus Cristo. Solicitaram-lhe, então, que permanecesse alguns dias” (Atos 10:44 – 48).

Porque você acha que a família de Cornélio pediu para que Pedro e os que estavam com ele “permanecessem alguns dias com eles”? Você tem alguma dúvida de que o que ele ficou fazendo foi ensinar aqueles recém batizados que ainda não tinham um conhecimento pleno a respeito de “todo o conselho de Deus”? (Atos 20:27). Se você ainda tem alguma dúvida vejamos os outros exemplos.

2) A conversão de Lídia seguida da visita à sua casa.
“E, no dia de sábado, fomos para fora do portão, para junto dum rio, onde pensávamos haver um lugar de oração; e assentamo-nos e começamos a falar às mulheres que se haviam reunido. E certa mulher, de nome Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e adoradora de Deus, estava escutando, e Jeová abriu-lhe amplamente o coração para prestar atenção às coisas faladas por Paulo. Então, quando ela e sua família foram batizadas, disse, suplicando: “Se vós me julgastes fiel a Jeová, entrai na minha casa e ficai.” E ela simplesmente nos fez isto”. (Atos 16:13 – 15).

O verso 40 diz que depois de Paulo e Silas saírem da prisão após o incidente com o carcereiro eles voltam à casa de Lídia: “Mas eles saíram da prisão e foram ao lar de Lídia, e quando viram os irmãos, encorajaram-nos e partiram”.

3) A conversão do carcereiro de Filipos seguida da visita à sua casa.
“E, no dia de sábado, fomos para fora do portão, para junto dum rio, onde pensávamos haver um lugar de oração; e assentamo-nos e começamos a falar às mulheres que se haviam reunido. E certa mulher, de nome Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e adoradora de Deus, estava escutando, e Jeová abriu-lhe amplamente o coração para prestar atenção às coisas faladas por Paulo. Então, quando ela e sua família foram batizadas, disse, suplicando: “Se vós me julgastes fiel a Jeová, entrai na minha casa e ficai.” E ela simplesmente nos fez ir” (Atos 16: 13 – 15).

4) Discipulado na casa de Tício Justo em Corinto:

“Mas, quando persistiam em opor-se e em falar de modo ultrajante, sacudiu a sua roupa e disse-lhes: “O vosso sangue caia sobre as vossas cabeças. Eu estou limpo. Doravante irei às pessoas das nações.” Concordemente, saiu dali e entrou na casa dum homem de nome Tício Justo, adorador de Deus, cuja casa era contígua à sinagoga. Mas Crispo, o presidente da sinagoga, tornou-se crente no Senhor, e assim também todos os de sua família. E muitos dos coríntios, que tinham ouvido, começaram a crer e a ser batizados” (Atos 18:5-8)

Esse é um dos exemplos que achei mais claros em esclarecer o sentido correto de Atos 20:20, ou seja, que Paulo pregou “publicamente e de casa em casa”. Que a pregação era primeiramente pública já foi comprovado com os vários exemplos mencionados anteriormente. E aqui aconteceu exatamente isso: primeiro Paulo pregou na sinagoga em Corinto (testemunho público), e depois e depois na casa de Tício Justo (ensino em lares particulares). É muito interessante que o relato mencione o fato deque não apenas Tício Justo (que evidentemente escutou a palavra publicamente na sinagoga) mas também que Crispo, o presidente da sinagoga tenha aceitado a mensagem.

Sobre os três últimos relatos, à Sentinela comentou:

“A pregação pública em sinagogas ou feiras muitas vezes serviu para achar os interessados. Quando tais pessoas adotaram o cristianismo, ofereceram hospitalidade aos proclamadores da mensagem de Deus. Isto resultou num belo benefício espiritual para os novos crentes, porque continuaram a serem instruídos nos seus próprios lares”. — Veja Atos 16:15, 32-34; 18:6, 7.W 79 1/1 pag. 10

Eu gostaria que você me respondesse essa pergunta: Você concorda ou discorda do que disse a Sentinela citada acima? Aguardo sua resposta.

Veja também o comentário do livro Testemunho Cabal sobre o trabalho na casa de Tício Justo:

“Onde Paulo pregaria então? Um homem chamado Tício Justo, pelo visto um prosélito que morava ao lado da sinagoga, abriu as portas de seu lar para Paulo. Assim, Paulo saiu da sinagoga e entrou na casa desse homem. (Atos 18:7) Paulo continuou morando com Áquila e Priscila enquanto estava em Corinto, mas a casa de Tício Justo tornou-se o centro de suas atividades de pregação” (pag. 151). O último exemplo também é muito interessante, e ele se deu exatamente na cidade de Éfeso.

5) Apolo é instruído por Priscíla e Áquila em casa.  

“Ora, chegou a Éfeso certo judeu de nome Apolo, natural de Alexandria, homem eloqüente; e ele era bem versado nas Escrituras. Este [homem] tinha sido oralmente instruído no caminho de Jeová, e, visto que era fervoroso no espírito, falava e ensinava com precisão as coisas a respeito de Jesus, mas estava familiarizado apenas com o batismo de João. E este [homem] principiou a falar denodadamente na sinagoga. Ouvindo-o Priscila e Áquila, acolheram-no na sua companhia e expuseram-lhe mais corretamente o caminho de Deus” (Atos18: 24 -26).

E novamente a Sentinela comentou sobre isso:

“O então existente costume não permitia que mulheres ensinassem publicamente nas sinagogas e nas feiras. Entretanto, visto que algumas mulheres crentes estavam presentes quando os homens ensinavam, elas podiam estar atentas aos que mostravam interesse. Daí, em cooperação com seu marido, participavam do ensino, até mesmo de homens. Por exemplo, quando Áquila e sua esposa Priscila ouviram Apolo falar na sinagoga de Éfeso, “acolheram-no na sua companhia e expuseram-lhe mais corretamente o caminho de Deus”. (Atos 18:26) (w 79 1/1 pag, 10)

Assim encontramos alguns exemplos que confirmam que depois de escutarem a pregação pública, os que aceitavam a mensagem eram discipulados em seus lares, de forma particular, em família ou em grupos maiores. Por outro lado não foi encontrado nenhum exemplo do serviço de “porta em porta” em todo o livro de Atos. Portanto Daniel, de acordo com o parâmetro estabelecido por você mesmo, os exemplos acima encerram o debate.

Finalmente, respondendo sua pergunta:

“Deixa eu te fazeruma Pergunta, você está pregando dessa maneira hoje, Ricardo? Se você ou qualquer outro estiver pregando dessa maneira, serão todos responsabilizados pela morte daqueles que não ouviram porque a mensagem não chegou até eles”.


Felizmente em minha pequena cidade sou uma pessoa bastante respeitada na comunidade. Eu nunca deixei de pregar sobre minha fé em Jesus. Tenho tido a oportunidade de falar a vários auditórios, bem como através de meios de comunicação como rádio, e até mesmo a internet. Além disso, eu dirijo estudos bíblicos individualmente e para grupos de pessoas em família. Portanto posso dizer sem receio que estou testemunhando “publicamente e de casa em casa”. Eu reconheço que você é um bom debatedor, e que se você estivesse defendendo algo ao qual a Bíblia realmente ensina, dificilmente acharia um oponente para te derrubar. Como eu já disse, nessa altura do campeonato não me importa muito “vencer” o debate. Eu tive a oportunidade de aprender muitas coisas com nossa conversa, até mesmo porque recorri constantemente à Bíblia. Reli e estudei atentamente todo o relato de Atos dos Apóstolos e isso foi de grande valia para mim. Tenho certeza que outros que acompanharam o debate também se beneficiaram, e isso é motivo de grande alegria. Espero sinceramente que você venha a refletir sobre tudo isso. Caso deseje fazer qualquer observação sobre o que foi falado acima, fique à vontade.

P.S: Relatório Final do Debate: http://coisasdareligiao.blogspot.com.br/2015/11/relatorio-final-do-debate-com-o-daniel.html


Print de vários comentários meus que se tornaram invisíveis durante o debate: http://coisasdareligiao.blogspot.com.br/2015/11/print-de-varios-comentarios-meus-que-se.html

Explicação sobre o conceito bíblico de slvação ao Daniel que defende a salvação pelas obrashttp://coisasdareligiao.blogspot.com.br/2015/11/explicacao-do-conceito-biblico-de.html

Link do vídeo com os comentário em baixo: https://www.youtube.com/watch?v=V4vkCrkdwNI 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O PAI, O FILHO, E O ESPÍRITO SANTO NO ANTIGO E NO NOVO TESTAMENTO


Por: Ricardo Guerra.

            Particularmente acho bastante interessante a informação contida na brochura “Deve-se crer na Trindade?” publicada pelas Testemunhas de Jeová:

“Se a Trindade fosse verdade, devia ser clara e coerentemente apresentada na Bíblia. Por quê? Porque, como afirmaram os apóstolos, a Bíblia é a revelação que Deus fez de si mesmo à humanidade. E, visto que temos de conhecer a Deus para poder adorá-lo aceitavelmente, a Bíblia deve ser clara em nos dizer quem exatamente ele é”. (Deve-se crer na Trindade? p.5).

            Quando damos uma breve olhada no conjunto de doutrinas defendidas pelas Testemunhas de Jeová, percebemos facilmente que se esse mesmo argumento fosse aplicado às suas próprias doutrinas, a maioria delas cairia por terra rapidamente. Um exemplo disso é a interpretação que diz que Jesus se tornou Rei no céu em 1914. Assim se substituíssemos a palavra “Trindade” por “Cronologia defendida pelas Testemunhas de Jeová” na pergunta acima ela ficaria assim: “Se a “Cronologia defendida pelas Testemunhas de Jeová” fosse verdade, devia ser clara e coerentemente apresentada na Bíblia. Por quê?” Se esse mesmo critério fosse aplicado a esse ensino, apenas essa pergunta seria suficiente para que as Testemunhas de Jeová abandonassem para sempre a cronologia de 1914. Mas vamos deixar de lado a cronologia e olhar para a doutrina do Pai, Filho e Espírito Santo, rejeitada pelas Testemunhas.
            Para falar desse assunto, primeiramente é preciso entender que muitas doutrinas aceitas pelos cristãos verdadeiros não estão prontas na Bíblia, por outro lado foram o resultado de muitas reflexões que em alguns casos duraram anos ou até séculos para serem formuladas. Assim, o fato de uma doutrina não estar pronta na Bíblia não significa que o conceito não esteja presente em suas páginas. Na verdade quando fazemos uma análise cuidadosa da doutrina da Trindade, percebemos facilmente que existe muito mais argumento bíblico a favor desta doutrina do que da cronologia defendida pelas Testemunhas de Jeová. Desse modo, vou tentar fazer uma breve análise do que o Antigo Testamento (Escrituras Hebraicas) contém sobre essa doutrina e depois farei o mesmo como o Novo Testamento (Escrituras Gregas).
            Todos os cristãos verdadeiros sabem que Deus sempre revelou sua verdade de forma progressiva, e até mesmo as Testemunhas de Jeová reconhecem isso. É interessante que quando lemos o primeiro capítulo da Bíblia já podemos encontrar um “sussurrar” a respeito do que conhecemos como a doutrina da “Santíssima Trindade”. Em Genesis 1:26 lemos: “Então disse Deus: ‘Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão’”.
            É no mínimo curioso o fato de que Deus disse no plural “Façamos o homem à nossa imagem”. Nesse mesmo sentido, um texto que vale a pena analisarmos são os capítulos 18 e 19 de Gênesis, onde Abrão recebe a visita de três anjos. É interessante que dois desses anjos se dirigem em direção à Sodoma onde morava Ló, e Abrão segue conversando com um deles o tratando como “Jeová” (18:22 Tradução do Novo Mundo - TNM). Mais notável ainda é que os outros dois anjos que se dirigiram até Ló e sua família também foram identificados como “Jeová” por ele no capítulo 19 (vers. 18 TNM). Embora esses textos não sejam em si uma prova irrefutável da doutrina da Trindade, eles pelo menos abrem a possibilidade de uma discussão sobre o assunto.
            Outra passagem muito interessante em relação a esse assunto é o capítulo 6 de Isaias. O versículo 1 nos informa que “no ano em que morreu o rei Uzias”, Isaias viu o “Senhor” que a TNM verte por “Jeová”. Também nos chama a atenção a fraseologia usada no versículo 8: “Quem enviarei? Quem irá por nós?”. Podemos notar facilmente o mesmo plural utilizado em Gênesis 1:26. Porém o mais intrigante nesse capítulo é a informação contida nos versículos 9 e 10: “Vá, e diga a este povo: “Estejam sempre ouvindo, mas nunca entendam; estejam sempre vendo, e jamais percebam.
Torne insensível o coração desse povo; torne surdos os ouvidos dele e feche os seus olhos. Que eles não vejam com os olhos, não ouçam com os ouvidos, e não entendam com o coração, para que não se convertam e sejam curados”. De maneira muito curiosa estas palavras são aplicadas a Jesus em João capítulo 12. Depois de demonstrar a incredulidade dos líderes judeus mesmo depois de Jesus realizar uma série de milagres, primeiro João (vers. 38) cita outra texto de Isaías (53:1) também dirigido a “Jeová” (TNM), e em seguida aplica as palavras de Isaias 6:9,10 a Jesus em seu evangelho (12:40): “Cegou os seus olhos e endureceu os seus corações, para que não vejam com os olhos nem entendam com o coração, nem se convertam, e eu os cure”. É interessante que embora a TNM diga que Isaias “viu a Jeová” (6:1), João 12:41 nos mostra que foi Jesus e sua glória que foram vistos naquele texto. Mais intrigante ainda é o fato de que Paulo aplicou as mesmíssimas palavras de Isaias 6:9,10 ao Espírito Santo em Atos 28:25,26:
“Bem que o Espírito Santo falou aos seus antepassados, por meio do profeta Isaías:
‘Vá a este povo e diga: "Ainda que estejam sempre ouvindo, vocês nunca entenderão; ainda que estejam sempre vendo, jamais perceberão”. Portanto podemos relacionar o capítulo 6 de Isaias com o Pai, o Filho e o Espírito Santo de forma muito natural, sem forçar nem um texto a isso.
            Talvez aqui seja importante definirmos um termo que os teólogos chamam de “teofania”, ou seja, as possíveis aparições de Jesus no Antigo Testamento como o “Anjo do Senhor”. Foi provavelmente isso que se deu nos casos de Genesis 18 e 19 e Isaías 6 que analisamos. É interessante que a Bíblia nos apresente a informação clara de que ninguém pode “ver a Deus e permanecer vivo” (Êxodo 33:20). Se entendermos que nas várias aparições de Jeová no Antigo Testamento, quem foi visto na verdade foi o próprio Jesus, João 1:18 fará todo o sentido, de fato Jesus é o “Deus revelado”.
            Creio que outro texto importante nessa discussão seria os capítulos 14 a 16 de João que falam amplamente do Espírito Santo de uma forma muito personalizada (não apenas “personificada” como as Testemunhas de Jeová acreditam), mas não vou fazer uma análise dessa passagem aqui para que esse texto não fique muito extenso, mas recomendo um estudo mais pormenorizado dessa passagem para todos que desejam aprofundar nesse tema.
            É também interessante que as passagens que falam da necessidade de unidade do “corpo de Cristo” que é a igreja cristã, de alguma forma são conectadas ao “Pai”, ao “Filho” e ao “Espírito Santo”. 1Corítios 12: 4-6 é um exemplo disso: “Há diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo.
Há diferentes tipos de ministérios, mas o Senhor é o mesmo.
Há diferentes formas de atuação, mas é o mesmo Deus quem efetua tudo em todos”. É impossível deixar de perceber a menção do “mesmo Espírito”, “Mesmo Senhor” (evidentemente Jesus) e o “mesmo Deus” (o Pai) nestes três versículos. A mesma fraseologia é utilizada por Paulo em Efésios 4:4-6: “Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só;
há um só Senhor, uma só fé, um só batismo,
um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos”. Além disso podemos notar a saudação final de Paulo em 2Coríntios 13:14 também conhecida como “bênção apostólica”: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vocês”. Todos esses textos nos mostra que a menção do Pai, do Filho e do Espírito Santo nos escritos de Paulo era relativamente comum.
            Muito mais poderia ser dito sobre esse tema através das páginas da Bíblia, mas acredito que para o objetivo desse artigo as passagens que foram analisadas são suficientes para iniciar uma discussão saudável e honesta sobre o tema. Quem sabe podemos aprofundar mais sobre esse assunto em outra ocasião.


Obs.: a menos que haja outra indicação, os textos citados são da Nova Versão Internacional.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

É BÍBLICO REBATIZAR UMA PESSOA CONVERTIDA PARA ELA SER ACEITA EM OUTRA IGREJA?

Por: Ricardo Guerra.
            Recentes conversas com alguns amigos trouxeram à tona uma velha discussão que certamente merece uma análise séria e cuidadosa. Hoje em dia existem enumeras denominações evangélicas, com as mais diversas visões sobre vários assuntos como ceia, batismo, dons do Espírito, entre outros. É costume de algumas seitas utilizarem o texto de Atos 19:1-7 para justificar a necessidade de um novo batismo de pessoas que desejam fazer parte de sua membresia. O que tem gerado grande desconforto é o fato de que até mesmo alguns poucos líderes de igrejas evangélicas, consideradas sérias em sua postura, têm utilizado os mesmos argumentos para exigir que uma pessoa já convertida e batizada receba um novo batismo para serem aceitas em seu rol de membros.
            Para analisar estas questões vou tentar responder objetivamente as seguintes perguntas: de acordo com a Bíblia, qual o requisito para uma pessoa ser batizada? O que representa o batismo na Bíblia? Qual a forma correta do batismo? Existe alguma situação que justificaria um rebatismo? O batismo teria alguma relação com a aceitação do conjunto de doutrinas de alguma denominação? Uma pessoa que não batizou em uma igreja estaria impedida de estar em “comunhão plena” com esta igreja?
O significado do Batismo.
            O batismo juntamente com a Ceia do Senhor são as únicas duas ordenanças deixadas por Jesus. Embora houvessem outros rituais relacionados a alguma forma de batismo entre o povo judeu, foi somente João Batista (ou seja, o que batiza) que trouxe uma ideia mais próxima do que viria a ser o batismo cristão instituído e ordenado por Jesus (Mateus 28:19,20). A palavra de Deus nos informa que o batismo de João era um rito de preparação que apontava para Jesus como o Messias que havia de vir ao passo que o batismo cristão olhava para o Cristo que já veio e cumpriu sua obra redentora (Atos 19:4,5). Portanto o batismo cristão nada mais é do que uma forma de testemunhar publicamente que a pessoa recebeu a Cristo como Senhor e Salvador de sua vida, e que a partir desse momento ela não vive mais para o mundo, mas sim para o seu Salvador (Romanos 6:1-4). Desse modo, o requisito para uma pessoa ser batizada é crer no plano de salvação de Deus através de Jesus, apenas isso, como será demonstrado mais a frente neste artigo.
            Existe uma antiga discussão sobre qual seria a forma correta de realizar o batismo, sendo as mais comuns, a imersão na qual a pessoa é completamente mergulhada em água, e a aspersão onde se derrama um pouco de água na cabeça da pessoa. É necessário fazer menção desse ponto devido ao fato de que muitas vezes o rebatismo é exigido exatamente porque a pessoa que muda de uma igreja evangélica talvez tenha sido batizada de uma forma que não é aceita na igreja a qual ela passa a frequentar. Não é minha intenção fazer aqui uma extensa exposição sobre as duas formas de batismo apresentadas e nem mesmo defender qualquer uma delas pelo simples motivo de que a Bíblia não diz qual o método deve ser utilizado. 
            Os defensores da imersão costumam argumentar que a palavra grega baptismous da qual se deriva batismo em português teria o sentido único de imergir ou mergulhar, mas uma simples olhada em alguns textos do Novo Testamento mostrará que esta palavra também pode ser usada no sentido de aspersão, e de fato foi usada para se referir aos diversos rituais de purificação utilizados no Antigo Testamento. Um dos exemplos mais claros sobre isto é o texto de Marcos 7:4 onde a palavra baptizo é            traduzida por aspergir na versão Almeida Revista e Atualizada. Outros exemplos são os textos de Hebreus 9:10 onde a palavra é vertida por abluções, e claramente está relacionada aos rituais de purificação comumente realizados por aspersão no Antigo Testamento e 1Coríntios 10:2 que diz que os israelitas foram “batizados na nuvem” por ocasião do êxodo. Portanto a palavra baptismous não é determinante quanto ao método a ser utilizado no batismo.
            Alguns textos como o relato do batismo de Jesus no Jordão em Lucas capítulo 3 e de certo eunuco etíope registrado em Atos capítulo 8 transmitem a forte impressão de que esses batismos podem ter sido por imersão. Por outro lado, nos relatos como o batismo de Paulo (Atos 9), do carcereiro de Filipos (Atos 16), do centurião Cornélio (Atos 10) e dos três mil de Pentecostes não são mencionados nenhum método e os contextos parecem indicar que podem ter sido de fato por aspersão, já que aparentemente não havia nenhum batistério em nenhum desses locais, e no caso do carcereiro de Filipos e de sua família, o batismo aconteceu tarde da noite. Visto que não há uma afirmação inequívoca na Bíblia a esse respeito, o que é importante de fato é o ato de batizar, e não necessariamente a forma como esse batismo é feito.
Entendendo esses pontos básicos sobre o batismo podemos agora analisar o texto de Atos 19:1-7.
O texto de Atos 19:1-7.
            Em primeiro lugar vamos olhar o texto principal utilizado pelos defensores do rebatismo, Atos 19:1-7 e seu contexto:

“Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo, atravessando as regiões altas, chegou a Éfeso. Ali encontrou alguns discípulos e lhes perguntou: "Vocês receberam o Espírito Santo quando creram? " Eles responderam: "Não, nem sequer ouvimos que existe o Espírito Santo". "Então, que batismo vocês receberam?", perguntou Paulo. "O batismo de João", responderam eles. Disse Paulo: "O batismo de João foi um batismo de arrependimento. Ele dizia ao povo que cresse naquele que viria depois dele, isto é, em Jesus". Ouvindo isso, eles foram batizados no nome do Senhor Jesus. Quando Paulo lhes impôs as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e começaram a falar em línguas e a profetizar. Eram ao todo uns doze homens”.

            De acordo com os defensores do rebatismo, esses discípulos eram pessoas convertidas, porém não tinham alcançado a plenitude do Espírito Santo. Outros acreditam que isso se deu porque havia divergências doutrinárias entre o que eles haviam aprendido como discípulos de João Batista e o ensino cristão, e é nesta segunda teoria que vou focar ao analisar esse texto.
            Para o entendimento correto desse acontecimento e o porquê de Paulo rebatizar estes discípulos é preciso analisar o que antecedeu a este episódio conforme marrado no capítulo 18 a partir do versículo 23. O relato nos diz que “um judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, chegou a Éfeso. Ele era homem culto e tinha grande conhecimento das Escrituras. Fora instruído no caminho do Senhor e com grande fervor falava e ensinava com exatidão acerca de Jesus, embora conhecesse apenas o batismo de João” (Atos 18:24,25). Em seguida o relato mostra que um casal de cristãos, Priscila e Áquila, viu este homem ensinando na Sinagoga e o convidou para sua casa para instruí-lo mais corretamente nos caminhos do Senhor (ver. 26). Nada é dito sobre a necessidade de um rebatismo. Depois disso ele partiu dali para a Acaia com cartas de recomendação dos irmãos de Éfeso (vers. 27) e ajudou amplamente a igreja naquele local (vers. 28). 
O capítulo 19:1-7 nos mostra que quando Paulo retornou a Éfeso, ele encontrou alguns “discípulos” que não sabiam da existência do Espírito Santo (vers. 1-4), o que indica fortemente que eles não eram convertidos ao cristianismo. Por esse motivo Paulo os batizou no “nome do Senhor Jesus” (ver. 5) e em seguida impôs as mãos sobre eles para que recebessem o Espírito Santo (vers. 6).

É interessante o comentário de D. A. Carson sobre esse texto:

“O primeiro episódio de Paulo na longa estadia (de quase três anos) em Éfeso foi um encontro com alguns seguidores de João Batista. A fama de João tinha evidentemente se espalhado para além da Palestina (Sobre sua importância cf. 1.21,22; 13:16-25; 18.23-28 e Lc 20.5-7). O termo alguns discípulos se refere aos cristãos, mas, uma vez que as pessoas aqui descritas não tinham recebido o Espírito Santo, é mais provável que devam ser consideradas discípulos de João Batista que estavam no “caminho”, mas não muito longe. 2 Sendo o Espírito Santo uma parte importante do próprio ensino de João Batista, a resposta desses homens de que nem mesmo ouvimos que existe Espírito Santo provavelmente significa que eles tinham ouvido uma versão da mensagem de João, mas não o próprio João. Além disso, os relatos que eles tinham ouvido concentravam em seu ensino ético, e não em seu papel de preparar o caminho (para uma exemplo do ensino de João Batista, v. Lc 3:7-14). 3. Essas pessoas tinham recebido o batismo de arrependimento, que era em si uma coisa boa, mas, diferentemente de Apolo (18-25), parece que nada sabiam sobre Jesus. Nada nos é dito sobre a necessidade de Apolo ser batizado novamente (Priscila e Áquila certamente teriam sido autorizados a batizá-los se Ananias pode batizar Paulo, At 19.17-19). A diferença provável é que Apolo conhecia e confiava no Messias (Seu conhecimento sobre o Messias era correto, ainda que incompleto; 18:25,26) e via seu batismo em conexão com essa fé, enquanto para esses discípulos o batismo era apenas sinal de bom comportamento. Eles ainda precisavam ser batizados em nome do Senhor Jesus (Carson 2012, p. 1648, 1649).

Em adição a isso Warren W. Wiersbe comenta:

“É importante observar que o padrão usado por Deus hoje é apresentado em Atos 10:43-48: os Pecadores ouvem a palavra de Deus, creem em Jesus Cristo, recebem o Espirito Santo imediatamente e, em seguida, são batizados. Os gentios de Atos 10 não receberam o Espírito pela água do batismo nem pela imposição das mãos dos apóstolos (At 8:14-17). O fato de esses homens não terem o Espírito habitando dentro deles comprova que, na verdade, não eram nascidos de novo...” (Wiersbe 2012. Vol. 5. p. 662).
           
            Rússel Shedd também faz uma clara distinção entre o batismo de João e o batismo cristão na nota sobre Atos 19:4,5 em sua Bíblia de estudo: “O batismo de João (Batista) era um rito preparatório, confirmando arrependimento (Lc 3.8) e prontidão para a vinda do Messias. O batismo cristão afirmava a história redentora de Cristo”.
            Portanto, de acordo com esses autores, aqueles discípulos mencionados em Atos 19:1-7 não tinham recebido um batismo propriamente cristão e na verdade não eram convertidos, por isso precisaram ser batizados no nome do Senhor Jesus, ou seja, no batismo cristão.
            Conforme fá foi mostrado neste artigo, de acordo com o Novo Testamento o requisito básico para uma pessoa ser batizada era crer em Jesus como seu único Senhor e Salvador (Romanos 10:9,10), portanto não era exigido que a pessoa na ocasião do batismo tivesse adquirido um amplo conhecimento doutrinário. Na verdade os vastos exemplos de batismos mencionados no livro de Atos dos apóstolos indicam que a pessoa escutava a palavra e era batizada imediatamente. Alguns exemplos disso são os três mil de pentecostes em Atos 2, o eunuco etíope de Atos 8, Cornélio e sua família em Atos 10, Lídia e o carcereiro de Filipos em Atos 16 entre muitos outros. Todos esses exemplos mostram que aquelas pessoas batizadas ainda não tinham um grande conhecimento doutrinário, de fato foram batizados no dia em que ouviram a Palavra. Em nenhum desses casos nos é dito que a pessoa batizava para ser aceito em uma comunidade local ou que ela deveria conhecer as doutrinas dessas igrejas.
            É claro que depois do batismo todas as pessoas receberam uma orientação doutrinária mais sólida em suas respectivas igrejas. Mas com base em todos os relatos mencionados podemos afirmar com convicção que a falta de esclarecimento doutrinário não foi impedimento para ninguém batizar na igreja primitiva. Tudo isso só reforça a suficiência da obra salvadora de Cristo. Podemos dizer então que, conformidade com visão doutrinária de denominação A, B ou C nunca foi um requisito para se receber o batismo. Embora existam hoje várias denominações cristãs com diferentes visões sobre doutrinas, não seria certo da parte de nenhuma destas denominações, exigir que uma pessoa verdadeiramente convertida e que já tenha recebido o batismo no intuito de testemunhar publicamente sua decisão de entregar sua vida para Jesus, seja batizada novamente. Batismo não é para aceitação de visão doutrinária denominacional, é a aceitação de Cristo como único e suficiente Salvador de sua vida. Exigir isso de uma pessoa seria reclamar para si uma exclusividade que não temos como denominação e uma tentativa de usurpar a posição que pertence de direito a Cristo (1Cornítios 1:10-31. Obs: embora esse texto se refira a igreja local ele estabelece um princípio para a igreja como corpo de Cristo). Não estou dizendo com isso que o rebatismo não deva ser feito em nenhuma circunstância. Mas a única situação em que um rebatismo se justificaria, com base em todos os exemplos bíblicos já mencionados, seria se a pessoa que recebeu o batismo não fosse de fato convertida. Em todo caso, ninguém pode determinar para outra pessoa que seu batismo não foi válido. Cada indivíduo deve fazer essa análise entre ela e Deus. Mas em hipótese alguma isso deve ser uma regra de igreja nenhuma. Quem define se o batismo foi válido ou se não, é a própria pessoa diante de Deus. Exigir de uma pessoa convertida que ela receba um novo batismo seria questionar o cristianismo dessa pessoa.
            Em sua oração sacerdotal, Jesus disse: “Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (João 17:20,21). O que Jesus disse a seus discípulos, a saber, “para que o mundo creia que tu me enviaste”, nos mostra que a oração de Jesus, além de sacerdotal, é também uma oração missionária. Enquanto nós como igreja do Senhor, continuarmos criando regras onde a própria Bíblia não as coloca, certamente não estaremos contribuindo para que o “o mundo creia” em Jesus. Segundo Raymond V. Franz, “as divisões surgem quando as pessoas tentam tornar definido, explícito e conclusivo aquilo que as próprias Escrituras deixam indefinido ou sujeito a mais de um entendimento possível. Surgem quando as pessoas transformam em grandes questões ― quando se considera o todo ― coisas de menor importância; quando criam regras a partir do que é simples conselho ou declaração geral de um princípio” (Franz 2008, p. 819). Certamente não queremos fazer de nosso ensino, um “mandamento de homens” (Mateus 15:6,9).

REFERÊNCIAS:

Carson D. A: Comentário Bíblico Vida Nova – Edições Vida Nova, São Paulo, 2012.

Franz, Raymond Víctor: Em busca da Liberdade Cristã – Commentary Press – Atlanta – Geórgia. Primeira edição em português: 2008.

Shedd, Rússel: Bíblia de Estudo Shedd – Edições Vida Nova, São Paulo, reimpressão 2013.

Wiersbe, W. Warren: Comentário Bíblico Expositivo. Vol. V. Geográfica, Santo André, SP, Brasil 2012.

CARTA DE DISSOCIAÇÃO E OS VÍDEOS DA SÉRIE "LIBERDADE CRISTÃ"

Minha Carta de Dissociação
Ricardo Guerra
Ao corpo de anciãos da congregação de Silvânia:
Prezados irmãos, estou sendo convidado para ser julgado por um crime que não cometi. Sempre procurei defender a Palavra de Deus acima da palavra de qualquer homem.
JULGAMENTO PÚBLICO
Pedi para que esse julgamento fosse público e isso me foi negado. Mas, visto que o julgamento que pretendem não tem nenhuma base bíblica, vou poupar os irmãos desse trabalho. Observem como isso pode ser facilmente provado pela revista Despertai! de 22 de dezembro de 1981, página 17:
"Os julgamentos de criminosos eram sem dúvida muito mais rápidos em Israel do que o são atualmente em países tais como os Estados Unidos, onde abarrotados tribunais e processos pormenorizados dão margem a muitos adiamentos. Visto que o tribunal local estava situado nos portões da cidade, não havia dúvida de o julgamento ser público! (Deut. 16:18-20) Sem dúvida, os julgamentos públicos ajudavam os juízes no sentido de exercerem cuidado e justiça, qualidades estas que às vezes faltam nas audiências em tribunais secretos e arbitrários. E o que dizer a respeito de testemunhas? (...) Nos tempos bíblicos, exigia-se que as testemunhas depusessem publicamente." (sublinhado acrescentado)
De modo algum este é um assunto isolado nas Escrituras como mostram os textos de Deuteronômio 16:18-20; 17:5; 21:19; 22:15; 25:7 e Rute 4:1. Por outro lado, não existe nenhum exemplo de comissão judicativa fechada nas Escrituras. Obviamente, os anciãos atuais não são menos imperfeitos do que os da antiguidade. Por que então esse mesmo princípio não deve ser colocado em prática atualmente?
CRONOLOGIA: DATA DE 607 AEC
Como sabem, já por algum tempo, tenho empreendido uma pesquisa exaustiva sobre o ensino da "cronologia" de nossa organização. O que tornou claro para mim que esta cronologia não pode estar correta é o fato da data de 607 AEC, da qual toda a estrutura dos cálculos dependem, não tem apoio histórico e nem mesmo da Bíblia Sagrada. A maioria de nossos irmãos não sabem disso. Tentei dialogar sobre esse assunto com vários irmãos da dianteira  anciãos conhecidos e respeitados por todos nós. Por fim, mandei uma carta à Betel tratando do assunto. Um confronto entre minha carta e a resposta que recebi mostrará claramente que minhas perguntas foram ignoradas. Os irmãos simplesmente repetiram aquilo que estava claro que eu já havia estudado, e que, por fim, se mostrou insatisfatório.
Uma breve olhada nas páginas 631 à 637 do livro Proclamadores mostrará que a organização falou pelo menos sete vezes (1873, 1878, 1881, 1914, 1918, 1945 e 1975) que o fim chegaria sem que nada de significativo acontecesse. Os irmãos não estão levando a sério os conselhos de Jesus em Mateus 24:36, bem como de Atos 1:7. Isso ficou claro com o último reajuste em relação à "geração" mencionada em Mateus 24:34 conforme a edição de A Sentinela de 15 de abril de 2010 página 10, parágrafos 13 e 14, onde se conecta novamente a "geração" a um período específico de tempo. Embora eu não tenha dúvida de que o fim esteja próximo, é evidente que esse novo entendimento não se harmonia com as palavras de Cristo em Atos 1:7: “Não vos cabe obter conhecimento dos tempos ou das épocas que o Pai tem colocado sob a sua própria jurisdição." Além disso, todas as datas obviamente erradas no passado levaram muitos a ficarem frustrados. Embora se mencione que isso tenha um paralelo com as expectativas erradas dos primeiros discípulos, que fizeram perguntas à Jesus (Mateus 24:3 e Atos1:6), aqueles cristãos jamais marcaram uma única data específica, e muito menos divulgaram isso para o mundo inteiro. Não há nenhuma especulação na carta aos hebreus que foi escrita pouco antes da destruição da cidade de Jerusalém pelos romanos em 70 EC. As palavras de Provérbios 13:12 cabem muito bem a muitos irmãos que se frustraram por tudo isso: "A expectativa adiada faz adoecer o coração".
APOSTASIA
Vale a pena relembrar um texto que os irmãos usam constantemente para acusar outros de apostasia, (palavra que se tornou banal na organização) trata-se de 2 Timóteo 2:16-18:
"Mas esquiva-te dos falatórios vãos que violam o que é santo; porque passarão a impiedade cada vez maior 17 e a palavra deles se espalhará como gangrena. Himeneu e Fileto são desses. 18 Estes mesmos se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já ocorreu; e estão subvertendo a fé que alguns têm."
Se os irmãos notarem o primeiro parágrafo da página 632 do livro Proclamadores, vão observar que a organização pregava exatamente o mesmo que Himeneu e Fileto. Ou seja, esperava-se o fim em 1878, e, quando isso não aconteceu, começaram a ensinar que "a ressurreição para a vida celestial começara naquele ano". Atualmente, (quando escrevo esta carta) ensina-se que essa "ressurreição celestial começou em 1918", como podem conferir no livro Clímax de Revelação, página 103, parágrafo 12.
ESPECULAÇÃO: VOLTA DE CRISTO
Outro texto usado, mas sem mencionar o contexto, é o de 2 Tessalonicenses 2:3-5. Os dois primeiros versos do capítulo também relacionam apostasia à especulação sobre a "presença de Nosso Senhor". É claro que isso torna inapropriado o uso que a organização faz desses versículos, já que ela mesma é culpada de especular sobre esse tema por várias vezes. Além do que, Deuteronômio 18:20-22 diz:
20 “‘No entanto, o profeta que presumir de falar em meu nome alguma palavra que não lhe mandei falar ou que falar em nome de outros deuses, tal profeta terá de morrer. 21 E caso digas no teu coração: “Como saberemos qual a palavra que Jeová não falou?” 22 quando o profeta falar em nome de Jeová e a palavra não suceder nem se cumprir, esta é a palavra que Jeová não falou. O profeta proferiu-a presunçosamente. Não deves ficar amedrontado por causa dele.’
Embora a organização afirme nunca ter falado no nome de Jeová sobre isso, as publicações em anexo mostram que essas datas eram encaradas como "Datas de Deus que não poderiam ser mudadas."
DESASSOCIAÇÃO: EXCLUSÃO SOCIAL
Quando percebi que membros da dianteira estavam fazendo descaso desse assunto, passei a dar atenção a outros detalhes, como, por exemplo, o tratamento dispensado aos "desassociados". Analisando cuidadosamente o assunto, percebi que não há uma base sólida na Bíblia para uma exclusão social. Para disciplina sim. Mas, excluir uma pessoa a ponto de esta não poder receber um 'olá' está muito longe do amor recomendado pelo "Pastor" que vai atrás da única "ovelha perdida" (Mateus 18:12-14). O texto usado pela organização para justificar esta exclusão completa, não está ligado a desassociação, e sim a anticristos, pessoas que negam de fato a Cristo como se pode conferir em 2 João 9-11. Ao passo que 1 Coríntios 5:14 exorta a "cessar de ter convivência" com um homem que evidentemente era iníquo, (categoria esta que muitas pessoas que são desassociadas não se enquadram), a nota na Tradução do Novo Mundo com referências mostra que, basicamente, a expressão significa "não vos mistureis com", o que evidentemente envolve associação íntima e achegada. É curioso que embora seja traduzido de forma diferente, a mesma expressão ocorre em 2 Tessalonicenses 3:14. Isso pode ser visto na nota: "não vos mistureis com". O versículo seguinte (15) mostra claramente que a pessoa não deveria ser encarada como inimigo, por outro lado deveria continuar a "ser exortada como irmão". Evidentemente a regra da organização neste assunto vai muito "além das coisas que estão escritas".  1 Coríntios 4:6.
VACINAÇÃO
Obtive outra informação que, pelo visto, 99,9% das Testemunhas de Jeová atuais não sabem: as vacinas já foram proibidas! Note o que as seguintes publicações mostram:
"O público não está em geral consciente de como a produção de soros, anti-toxinas e vacinas é uma grande indústria, ou de como o Alto Comércio controla toda esta indústria.... os conselhos de saúde esforçam-se para começar uma epidemia de varíola, difteria, ou [febre] tifóide para que possam ceifar uma colheita dourada ao inocularem uma comunidade que não pensa, com o exacto propósito de dispor desta porcaria manufacturada."  The Golden Age [A Idade do Ouro], 3 de Janeiro de 1923, página 214.
Tempos depois, esse assunto é descrito sutilmente como uma questão de decisão pessoal. Nem é preciso dizer o número de vidas que foram afetadas e até perdidas por isso! (Ver anexo.)
TRANSPLANTES
De modo similar, os transplantes de órgãos eram proibidos como mostra as publicações abaixo:
"Será que há alguma objeção bíblica a que se doe o corpo para uso na pesquisa médica ou que se aceitem órgãos para transplante de tal fonte?  W. L., EUA.
[...] Quando há um órgão doente ou defeituoso, o modo usual de a saúde ser restaurada é por receber substâncias nutritivas. O corpo utiliza o alimento ingerido para consertar ou curar o órgão, substituindo gradualmente as células. Quando os homens de ciência concluem que este processo normal não mais dará certo e sugerem a remoção do órgão e a substituição do mesmo de forma direta por um órgão de outro humano, isto é simplesmente um atalho. Aqueles que se submetem a tais operações vivem às custas de carne de outro humano. Isso é canibalesco. Não obstante, ao permitir que o homem comesse carne animal, Jeová Deus não deu permissão para os humanos tentarem perpetuar suas vidas por receberem canibalisticamente em seus corpos a carne humana, quer mastigada, quer na forma de órgãos inteiros ou partes do corpo, retirados de outros.  A Sentinela de 1° de junho de 1968 páginas 349 e 350.
Novamente, depois disso, como na questão das vacinas, sem dar nenhuma explicação sobre o passado, os transplantes de órgãos passam a ser encarados como questão de decisão pessoal. Novamente, imaginem por um instante o dano que esta proibição causou na vida das pessoas!
FRAÇÕES DE SANGUE: PROIBIDAS OU PERMITIDAS?
A organização titubeou várias vezes sobre uso de frações de sangue. E, enquanto isso, vidas eram perdidas por este mesmo motivo:
1
frações proibidas
Þ
Despertai! de 1º de fevereiro de 1956, página 20.
2
frações permitidas
Þ
A Sentinela de 1º de fevereiro de 1959, páginas 95 e 96.
3
frações proibidas
Þ
A Sentinela de 15 de março de 1962.
4
frações permitidas
Þ
A Sentinela de 15 de julho de 1963, página 443.
5
frações proibidas
Þ
A Sentinela de 15 de outubro de 1974, página 640.
Ora, uma vez que não se tinha certeza sobre o assunto, isso não deveria ser assunto de decisão pessoal?
TRANSFUSÃO DE SANGUE: NÃO É COMER SANGUE
Infelizmente há uma série de incoerências também na proibição das transfusões sanguíneas atuais como se pode ver abaixo:
"Toda vez que se menciona a proibição de sangue nas escrituras é com relação a tomá-lo como alimento, e assim, é como nutriente que nos interessa a sua proibição."  A Sentinela de 1º de fevereiro de 1959, páginas 95 e 96.
"Muitos dizem que uma transfusão não é semelhante a comer sangue." É sólido este ponto de vista? Um paciente no hospital pode ser alimentado através da boca, através do nariz, ou através das veias. Quando soluções de açúcar são dadas por via intravenosa, isso é chamado alimentação intravenosa. Portanto, a própria terminologia do hospital reconhece como alimentação o processo de colocar nutrição no nosso sistema através das veias. Consequentemente, o enfermeiro que administra a transfusão está a alimentar o paciente com sangue através das veias, e o paciente que recebe o sangue está a comê-lo através das veias."  The Watchtower [A Sentinela], 1.º de julho de 1951, página  415, em inglês.
Depois que a medicina evoluiu e se descobriu que uma transfusão não é o mesmo que comer sangue, a liderança das Testemunhas de Jeová começou a usar a expressão "sustentar a vida com sangue". Diferente do álcool que, ao ser tomado, chega no estomago e depois vai direto para a corrente sanguínea, o sangue é digerido quando se come. A transfusão hoje é encarada como um "transplante de um tecido fluído". Agora vejam como vem o esclarecimento:
"Como observa Denton Cooley, cirurgião cardiovascular: 'Uma transfusão de sangue é um transplante de órgão.'"  Despertai! de 22 de outubro de 1990, página 9.
"Quando os médicos realizam um transplante de coração, do fígado, ou de outro órgão, o sistema imunológico do receptor pode detectar a presença do tecido estranho, e rejeitá-lo. Todavia, uma transfusão é um transplante de tecido. Como Pode o Sangue Salvar a Sua Vida? (1990), página 8, ênfase no original.
Assim como todo mundo hoje já sabe que um transplante de órgão não é o mesmo que comer o órgão (portanto, não é canibalismo) a transfusão não é o mesmo que comer o sangue. Como se pode ver, o conceito atual não é mais aquele de que "toda vez que a Bíblia menciona o uso do sangue é como alimento...", portanto não é "sangue como nutriente" que está em jogo hoje, como se dizia lá em 1959.
FRAÇÕES DE SANGUE: DUPLO CRITÉRIO
Em relação ao uso de frações, 93% do plasma é água, e os outros 7% são proteínas complexas. Podemos aceitar todos esses 7% separadamente. A albumina (fração do plasma) corresponde a 2,2% do sangue total, uma fração muito maior que os glóbulos brancos (1%) e as plaquetas (0,17%). Não parece incoerente poder aceitar um componente que corresponde a 2,2% e não poder aceitar uma fração muito menor como as plaquetas (0,17%)? As pesquisas mostraram também que o leite materno contém mais leucócitos (glóbulos brancos) do que o sangue. Isso cria uma incoerência, já que podemos "mamar" leucócitos porque não poderíamos recebê-lo nas veias? (Veja o artigo da PUC em anexo).
TRANSFUSÃO DE SANGUE: CONSCIÊNCIA PESSOAL
Como vocês talvez saibam, o único motivo de não podermos tirar o nosso próprio sangue e guardar para uma possível emergência durante uma cirurgia, é porque esse sangue é "armazenado". Mas a preparação das frações permitidas pela organização requer a doação, armazenamento e processamento de grande quantidade de sangue, o que torna incoerente a proibição em relação a guardar seu próprio sangue para uma emergência. Isso poderia muito bem ser uma questão de consciência. Estou bem ciente dos riscos envolvidos nas transfusões. Não estou recomendando esse procedimento. O que estou dizendo é que, por tudo isso, acredito que essa também deveria ser uma questão de consciência. Posso dizer isso porque há um exemplo na Bíblia que estabelece um paralelo:
"Aconteceu então, num sábado, que ele estava passando pelas searas, e seus discípulos arrancavam e comiam espigas, esfregando-as nas mãos. 2 Vendo isso, alguns fariseus disseram: “Por que fazeis o que não é lícito no sábado?” 3 Mas Jesus disse-lhes, em resposta: “Nunca lestes o que Davi fez quando ele e os homens com ele ficaram com fome? 4 Que entrou na casa de Deus e recebeu os pães da apresentação, e que comeu e deu também aos homens que estavam com ele, os quais a ninguém é lícito comer, exceto somente aos sacerdotes?” 5 E prosseguiu a dizer-lhes: “Senhor do sábado é o que é o Filho do homem.”
Como podem ver, Jesus não condenou Davi que estaria "violando" uma lei clara, mas Jesus levou em consideração a necessidade dele naquela ocasião. Porque o mesmo não deveria se aplicar à questão do sangue?
Acredito que enquanto existir um tratamento alternativo não deveríamos hesitar em usá-lo. É muito mais seguro. As orientações dada pelas COLIH's nessa questão devem ser elogiadas. Mas, me pergunto como Jesus reagiria caso estivesse na Terra hoje e um irmão decidisse aceitar uma transfusão sanguínea. Será que ele encararia essa pessoa como estando "renunciando sua posição como testemunha de Nosso Deus", ou será que veria a situação semelhante ao evento envolvendo Davi e seus homens? Por isso, não vejo o que dá direito a humanos imperfeitos tomar a decisão pela vida dos seus co-trabalhadores.
Por tudo isso, tenho medo que a proibição de hoje assim como no caso das vacinas sejam os erros de amanhã, só que até lá várias vidas já terão sido perdidas. Será que não existe a possibilidade de que daqui a alguns anos, assim como no caso das vacinas e dos transplantes de órgãos, os irmãos venham a encarar o plasma ou mesmo os leucócitos como permitidos?
É óbvio que a organização que agiu irresponsavelmente para com a vida dos irmãos no passado  tornando assim a vida deles algo banal  infelizmente não parece ter aprendido a lição.
ENVOLVIMENTO COM A ONU
Eu poderia falar sobre uma série de outros exemplos, mas vou concluir falando de um caso envolvendo a ONU e um acordo com o Governo da Bulgária. A maioria destas questões foi discutida principalmente com o Gilberto, devido a posição de responsabilidade em que ele se encontra e também pelo fato de ler fluentemente o inglês.
Disponibilizei em anexo um documento do site oficial da ONU que mostra que nossa organização esteve associada com ao DPI (Departamento de Informação Pública) da ONU de 1992 a 2001. Essa associação envolvia apoiar a carta das nações unidas e veicular em suas publicações os programas da ONU. Acredito que nada disso seria um problema em si mesmo, se a organização não ensinasse que a ONU é a "imagem da fera", "fera cor de escarlate", "instrumento de Satanás" e "uma imitação blasfêmia do Reino de Deus na Terra". (Junto com o documento original está uma tradução do mesmo. Ver o documento oficial da ONU em inglês ou em português)
Estudos recentes de A Sentinela reafirmaram a crítica às religiões da "cristandade" devido a esse tipo de envolvimento com "instituições humanas" até mesmo descrevendo-as como "refúgio da mentira" (A Sentinela de 15 de dezembro de 2010, página 10, parágrafo 13, A Sentinela de 15 de janeiro de 2011, página 6, parágrafo 19 e A Sentinela de 15 de março de 2011, pagina 24 parágrafos 1 e 2).
Isso faz lembrar as atitudes contrastantes do fariseu e do cobrador de impostos mencionados por Jesus:
9 Mas, ele contou a seguinte ilustração também a alguns que confiavam em si mesmos como sendo justos e que consideravam os demais como nada: 10 “Dois homens subiram ao templo para orar, um sendo fariseu e o outro cobrador de impostos. 11 O fariseu estava em pé e começou a orar as seguintes coisas no seu íntimo: ‘Ó Deus, agradeço-te que não sou como o resto dos homens, extorsores, injustos, adúlteros, ou mesmo como este cobrador de impostos. 12 Jejuo duas vezes por semana, dou o décimo de todas as coisas que adquiro.’ 13 O cobrador de impostos, porém, estando em pé à distância, não estava nem disposto a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Ó Deus, sê clemente para comigo pecador.’ 14 Digo-vos: Este homem desceu para sua casa provado mais justo do que aquele homem; porque todo o que se enaltecer será humilhado, mas quem se humilhar será enaltecido.”  Lucas 18:9-14.
O CASO BULGÁRIA
Em relação ao caso Bulgária, muitos sabem que a obra das Testemunhas de Jeová esteve proscrita nesse país por dois motivos básicos: pela recusa do serviço militar e por negar receber transfusões de sangue. O governo da Bulgária encarava as Testemunhas como um "perigo para a saúde pública", especialmente por causa de casos envolvendo crianças. Visto que o governo se negou a reescrever a organização como uma religião regularizada, a Associação recorreu à comissão Europeia dos Direitos Humanos, que entrou como conciliadora do acordo. Em essência, os termos do acordo referentes à questão do sangue diz:
"Com respeito à posição das Testemunhas de Jeová em relação ao sangue.... os pacientes Testemunhas de Jeová recorrendo sistematicamente a tratamentos médicos para si mesmos e para os seus filhos, o farão usando de seu próprio livre arbítrio, sem nenhum controle e sanção por parte da requerente [a Associação das Testemunhas de Jeová]".
Em outras palavras, a organização concordou em liberar os irmãos para decidirem por si mesmos, sem nenhuma punição, seja na forma de repreensão ou desassociação. Obviamente isso não foi informado aos irmãos, o que evidentemente não foi honesto. O site oficial do Conselho da Comissão Europeia dos direitos humanos disponibilizou um boletim sobre este caso em inglês, o informativo sobre o caso está na página 12. Estou mandando em anexo também o relatório completo disponibilizado pela Comissão Europeia dos Direitos Humanos. O parágrafo transcrito anteriormente está na parte II desse documento em francês. Não é à toa que os irmãos desse país estão sofrendo os ataques que estão circulando na internet.
DISSOCIANDO
É por esses e outros motivos, e com grande pesar, estou me desligando oficialmente da Associação das Testemunhas Cristãs de Jeová. Não acredito mais que ela seja o canal exclusivo de Deus na Terra, e nem que exista outra organização exclusiva. Acredito sim que existam indivíduos dentro da nossa organização bem como de outras que fazem o seu melhor para agradar a Deus tornando assim seu serviço aceitável. Fico muito triste pelo tratamento que será dispensado a mim por parte dos irmãos. É claro que no que dependesse de mim, não seria necessário esse afastamento dos irmãos que conheço a cerca de uma década. Mas, infelizmente, esse é o treinamento recebido da organização. Quero que saibam que continuo amando profundamente a Jeová e a todos vocês. Tenho os melhores pensamentos sobre todos vocês. Sei que a motivação de muitos irmãos é pura. E certamente Jeová também sabe. Também sou grato a organização por tudo aquilo de bom que aprendi dentro dela. Tenho a plena certeza que todas as promessas de Nosso Amado Deus se cumprirá no tempo dele, e não no nosso.
Hoje mais do que nunca as palavras de Romanos 8:38,39 são verdadeiras para mim:
38 Pois estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem governos, nem coisas presentes, nem coisas por vir, nem poderes, 39 nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criação será capaz de nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Sei também que para muitos irmãos já estou antecipadamente julgado e condenado à destruição, mas o julgamento não pertence aos homens, e sim a Deus, e estou confiante nisso. (Mateus 7:1) Quero terminar com muita tristeza no coração e externando meu sincero amor cristão a todos os meus queridos irmãos e amigos a quem continuarei a incluir em minhas orações.
Atenciosamente, Ricardo Guerra.

PS:
a) Carta enviada a Betel;
b) Resposta de Betel confrontada com minha carta;
c) Boletim informativo sobre o acordo com o governo da Bulgária (em inglês);
d) Relatório sobre o acordo (em inglês, e os termos do acordo em francês);
e) Informativo sobre o caso ONU (em inglês e tradução);
f) Artigo da PUC "Aspectos imunológicos do aleitamento materno";
g) Algumas citações retiradas de publicações antigas da organização Torre de Vigia.
No fim das contas, os anciãos disseram que essa carta não foi aceita para validar minha dissociação porque simplesmente eu havia esquecido de assiná-la. Em resultado, fui desassociado. Uma semana depois um amigo, servo ministerial, pediu dissociação.